quarta-feira, 25 de maio de 2011

E os dedos dentro do tênis suado contorciam-se freneticamente no espacinho entre o pé e o bico do tênis - pé, meia e tênis em fricção. Da boca saiam palavras duras e era como se cada verbo fosse escolhido para ferir rigorosamente os machucados que ainda nasceriam daquela conversa. Dois goles de cerveja e tudo estaria terminado.

Desceu com uma cacofonia sentimental as ruas até sua casa. Abriu livros, gavetas e chorou debaixo do chuveiro para esconder de si mesmo aquelas lagrimas tão odiosas: clichês. O choro, apesar de verdadeiro, era juvenil e isso lhe causava repulsa – como o querer é pueril e seu contrario tão senil e vingativo. E das coisas que o deixavam enojado era a facilidade com que se deixou envolver e a falta daquilo que nem mesmo tinha nome, cor, ou acordo em comum das partes: o momento mágico, de brilho dos olhos, de fantasia, de saudades – mero intervalo luminoso entre o inicio e o fim de uma lágrima, momento piegas filho da puta do caralho.

E não importa o tempo, outro afago, outra decepção – mal resolvidos – palavras de apoio, botecos, trabalho, amigos: nada.

- é isso então!?

- sim, eu não sei bem

- nem eu.

- meus pés doem...

- (a cabeça vai de um lado para o outro num tom de auto-reprovação) Que diabos eu vim fazer aqui? Que conversa é essa? Como chegamos neste momento? Preciso ir pra casa, já estou doze horas com este tênis... Acho que não tem nada pra comer em casa.

- é o cansaço.

(silêncio)

- eu já sabia.

(E guardando os demônios em todos os poros se despede cordialmente com um sorriso-choro e caminha em direção a porta)

21:30 era a hora marcada.

21:00 já tinha terminado a primeira garrafa de cerveja sozinho.

20:00 entram os primeiros clientes da noite, metade das cadeiras ainda repousam sobre as mesas sem uso. É um casal – porção de fritas, cerveja e uma garrafa de água. Ela segura as mãos dele, segue-se um beijo, afagos. A cerveja chega servem-se. Brilho nos olhos.

19:21 os salgados frescos são divididos entre as estufas.

18:42 estão lavando os banheiros pela terceira vez no dia.

17:30 de uma sexta-feira praticantes do happy hour choram de rir na mesa 5. Estão em 12 pessoas. Algumas delas flertam.

17:00 os funcionários do segundo turno rendem os do primeiro.

15:00 começam a lavar os banheiros e a preparar salgados.

13:00 sai para o almoço com estômago revirado em angústia.

14:00 chegam os primeiros clientes para o almoço executivo.

13:00 lembrou agora que teriam aquela conversa.

9:00 sem atrasos chegam ao trabalho

8:20 estão no ônibus a caminho do trabalho

6:00 chegam os primeiros clientes e o cheiro do café se espalha

4:30 começam a lavar tudo

4:20 os últimos clientes são convidados a ir pra casa

2:00 chora copiosamente vaticinando a noite

3 semanas atrás faziam planos de um fim de semana juntos.

Brilho nos olhos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011


Gauche

Encostado na calçada em farrapos, costas arqueadas, braços rasgados: observa meticulosamente o trânsito do cruzamento que agora habita. Carros desbravam semáforos vermelhos e pedestres apressados, alguns bêbados sentam-se e compartilham da vista sem trocar palavra alguma. Sozinho com seus botões, suas roupas rasgadas e lembranças de outros tempos: e antes na sala de uma casa de classe média, TV, festas, confraternização; depois mudança, uma casa menor crianças pulando, sujeira, brigas. E assim se passam os anos, muitos - fadado ao desuso, ao acaso das ruas e das companhias. Uma mulher o olha com desdém, empecilho na calçada. E continua ali parado observando os solilóquios alheios: quarenta reais cobra a boneca por um programa, ela aguarda no semáforo também seu ganha pão, malabaristas, cuspidores de fogo, vendedores de bala. Gente vem, vai, sol, lua, chuva – poluição. Seu porte físico talvez não agüente muito as ruas, talvez ninguém possa suportar tanto abandono: o abandono dos outros, o próprio: é possível viver mecanicamente – dorme, acorda, come, trepa, ama, apaixona, chora, tuita, sofre, sofre,
: deita a cabeça lateralmente olhando a cor desbotada das coisas dentro da cabeça sentado no sofá da sala com a TV ligada em companhia.Pedestra a rua como no clipe que imagina ouvindo musica triste nos fones: sente a fotografia do clipe da sua vida, cinza, lágrimas, saudades, beijos, despedidas: espera o semáforo ficar verde para atravessar a rua: a direita em meio ao lixo um sofá repousa o desfecho de sua existência.