segunda-feira, 27 de junho de 2011

Redondilha sobre mulher e formigas.


(dos diários escritos em papel presente velho)


Parte I

Dois dias de sol nesta semana e as formigas voltam a habitar armário, pia e restos de comida pela casa. Formigas possuem essa habilidade de sumir quando necessário e voltar como se nada tivesse acontecido: técnica não aplicável a nós complexos mortais. Desta coisa da vida vir em ondas: damos pulinhos, tomamos caldo, caímos e algumas vezes enfrentamos as tormentas. Grande coisa. Verdade é que a praia é sempre mesma, a água não: vem suja, salgada, vermelha, calma, irritadiça. As formigas morrem afogadas. Formigas fazem rodinha em volta de um grão de arroz, e formiga quem é criança sabe, gosta de doce. Quem é criança brinca de matar formiga para fazer professora ficar doente e não ter aula.

2h30 sentada vendo formiga em roda do resto de comida: e como seria se tivesse ficado, dito, chorado, esperneado, mastigado. Porra. Caralho. A cabeça indo e vindo em lembranças, invenções e uma gosma de sentimentos amargos do tempo; doce, o beijo era sempre doce. O mar pela manhã, ondinha por ondinha, em redondilhazinhas. Parar com diminutivos e palavrões. O abraço quente afago rosquinhas café quente almoço sexo cafuné vinho afago cabeça quente leite café frutas cabaço.

Na verdade, os pés estão sujos agora e a água salgada vem lavá-los e torná-los coerentes. Formigas sobem pelas pernas, entram no nariz do morto amanhecido na calçada, pão, leito, leite e biscoitos. O morto: cabelos grisalhos e uma sacola na mão. Frutas, verduras, leite e pão. Sair de casa e fazer o almoço, diário, agente, anotar o mundo, as compras, as garças, terremotos, coração, desgraças. A cabeça girando em torno dos grãos de arroz onde as formigas já fazem fila, fila banco contas. O mar, da janela vejo o mar e o sol que consola a pele gasta.