segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Quianda.

Era criança dessas que se bastam. E se bastou antes dos primeiros por quês, era feita a esquerda.

Passava horas observando o tráfego de sombras da temporada. A casa, na beira da estrada, a cidade ficava para trás, a infância também.

Talvez nunca tenha baixado os olhos daquela forma, ou o seu corpo não se mostrasse tão impenetrável, melhor, desconhecido. Passava os olhos por seu corpo e junto deslizava as mãos, devia ter ficado toda contorcida para enxergar e tocar algumas partes. Passando as mãos pelo rosto queria transformá-las em espelho, impaciente deixou-as cair até os seios, abdômen. As mãos, juntas, em forma de prece, como em dia de verão: mergulhou dentro de seu umbigo. Ficou do avesso.

Em avesso era invisível.

Tornou-se sensível às coisas ao seu redor. Seus músculos, livres, da primeira pele, mal conseguiam controlar os impulsos quando tocavam algo. Decidida a permanecer Ela, mesmo ausente aos olhos dos outros, decidiu voar. Incrivelmente seus olhos continuavam apontando para a direção de seu nariz, e ele, o nariz, já não aponta mais para onde deveria. Fazia sol, a camada adiposa do seu corpo derreteu feito manteiga na chapa. Decidiu não decidir mais, mas antes, decidiu seguir a direção das sombras, esqueceu-se da noite.

A insônia veio diferente, com olhos sempre abertos. De ficar muito tempo olhando uma coisa só, começou a conversar com coisas, estranhamente essas coisas não lhe respondiam, faziam cara de quem foi magoado.

Amanhecia como O todo sempre, depois da noite, e sempre e sempre. As empreitadas matinais, de seguir as sombras, lhe causavam algum tédio: escolhida a sombra, essa se demorava de hora em hora para um movimento considerado, a olhos nus, um movimento, e o sol ressecava seus tecidos sem pele. Estranhamente começara a sumir pelas cozinhas da cidade aqueles potes, com os quais, algumas donas de casa guardam a banha dos cozidos para outros cozidos. Ninguém ainda havia dado por falta dela. Agora segue os pedestres e os carros, sua não-pele começou a ficar enegrecida, estranhamente os rios começaram a ficar poluídos.

Numa noite, o Sofá corrigiu um erro de concordância verbal - o erro não vem ao caso. Fato: essa foi a primeira resposta que recebeu, começou a errar os tempos verbais.

Descobriu que sonhava, viu seu corpo ao avesso.

Com as mãos, depois de banhar-se ao sol, começou a arrancar as camadas de seu corpo, uma a uma, chegando ao limite, sentiu-se tomada por renovação. Foi refeita em direito por caramujos do jardim, andava pelas ruas e o sol iluminava seu rastro feito feixe fino de luz que ilumina uma música nova.

Sentiu nojo de si, sua viscosidade parecia nariz de criança pequena que não cessa de escorrer, e como criança pequena, simples, entendeu o mundo, as distancias e aprendeu todas as línguas. Calou.

Quis sentir o mar.

Agora é areia dessas bem finas, que ao sabor do vento caminham por entre as estações e cegam nossos olhos quando abertos de fronte ao vento. Abriu as janelas, borboletas no jardim.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Retrato em preto e sangue.

Uma mulher lava a calçada, fumando um cigarro, absorta na manhã. Depois de recriar a solidão de olhos fechados a cidade amanheceu. A mulher que fumou o cigarro na calçada, antes do enquadramento daquela cena, dormiu com coração apertado de saudade de coisa que não tem nome e nem gosto – e era como se comesse recortes macabeando os sentimentos durante o dia: remoendo situações para doer mais ou menos - isso dependia de como se tocava.

Bebera tanto aquela noite que nem conseguia descrever para que lado pendia sua cabeça segura pelos cotovelos apoiados na mesa, não sabia o nome do dono da mão entre suas pernas: não sabia. Das coisas que não compreendia estava o porque do adeus, da dor e do fim da infância. Quando tinha uma família, uns filhos, essa gente toda que não caberia no kit do centro que aluga com uma amiga de trabalho também cinza: não sabem da solidão uma da outra entre cores de esmaltes com adjetivos estranhos as cores e roupas que se simulam.

O marido a trocou: é essa a palavra que usa quando conta a história depois do trabalho com as amigas no forró, e tem um homem que esta lhe comendo com os olhos enquanto a música alta não deixa que as amigas ouçam o fim da história: ele levou as crianças.

Depois que nasceram as crianças a coisa ficou difícil, o corpo ficou distante, o homem ficou no bar, a vida doméstica.

Era a primeira vez que ganhara presente de natal, era felicidade, brincadeiras de ser o outro mais velho, mais sério, era a infância. E via a mãe na janela com um cigarro na boca absorta entre o enrolar do cabelo com os dedos, os olhos nas crianças, depois longe delas, depois em lugar que não se descreve: a fumaça percorria a garganta até os pulmões dando uma sensação de alivio.