quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Suely e Alexandre.

A coisa toda ficou no ar, numa espera espessa, o tempo condensado, que nos minutos depois de sua chegada se desenrolariam fáceis como água na ladeira. Jovem, esguio, 17 anos, com poucos amigos, talvez nenhum, corpo fora da cabeça ou o contrário disso como todo mundo em certa idade. Sentada na mesa do bar, eram oito horas da manhã, tocava um velho disco da Bethânia, esperava - não sabia, esperava que o sol logo despontasse entre os prédios, era a hora de ir embora: contaria o dinheiro e os senões da noite. Quando era criança, desengonçado pela altura, parecia fora do padrão da maioria, tinha hábitos secretos no quarto da mãe, palavras secretas em seu diário, sensação de estar sempre no filme errado, ou era a personagem errada, coisa que se vai levando, comendo, andando. O quarto cheirava a um sexo anterior, ou a milhares deles, hotel no centro, lençóis amarelados, cortinas vermelhas: os movimentos pélvicos faziam ranger a cama velha. As roupas nela pareciam ter sido encaixadas a força em seu corpo, o corpo e as roupas, a cabeça, era ela que parecia ter sido encaixada no corpo.

O sol as nove da manha feriu o concreto entre os prédios, feriu os olhos de quem saía dos inferninhos da cidade: Suely chegou em casa as dez da manhã. Alexandre não volta para casa há cinco anos, ainda escreve em seu diário, mas não tem mais segredos.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tempo de pipa.

Passou a infância olhando pra cima, apontava o céu, dizia: grande. Ainda criança descobriu, na pipa, companheira e intermediária – as inventou de todas as formas e cores, de todos os materiais e de todos os sonhos. Andava para todos os caminhos guiando todas as pipas do céu, sentia-se flutuar, mesmo parado na calçada. E o tempo veio rápido: feito pipa que rasga o céu num corta vento. Homem farto das idéias impossíveis no chão.

Mas que digam que é doido, sabe que não é, e sabe que viver feito formiga que é loucura, porque formiga é formiga e gente é bicho feito pra se encantar no olhar. Acredita que foi encantado ao nascer. A mãe sempre dizia – nasceu assim, com a cara para o mundo, com olhos tão abertos e grandes que parecia que a qualquer momento iriam rolar pelo chão da casa até a porta e voar em direção ao céu. Gostava de lembrar os dizeres da mãe, fechava os olhos e os sentia criar asas até o infinito e arrebatar-se com seu tamanho diante do mundo.

Na rua de braços abertos de pés no chão voava feito gavião entre os pedestres da hora do almoço, usava-os como obstáculo, treinando. Com o tempo adquiriu a capacidade de não ouvir certas palavras, de não sentir certos cheiros e não ver com olhos de formiga. Desconhecia a necessidade de olhos pra se viver em formigueiros e matutava nunca ter visto os olhos de formiga alguma mesmo com muitas tentativas. E há tempos que todas as formigas, quando o sentem, se afastam. Algumas vezes lembra de comer.

Dia desses alguém lhe disse: venha vamos voar. Acreditou. Foi de branco à um castelo onde lhe dariam asas, lhe deram pregos. Inda de noitinha quando lembra que não é formiga, ou quando volta do fundo branco do quarto, viaja sem fim por todos os lugares. Ontem mesmo foi até sua antiga casa, se viu criança, soltou pipas e comeu bolinho de chuva que sua mãe fez. Mas logo se finge de formiga pregada que é para não assustar ninguém com seus olhos grandes.

domingo, 8 de agosto de 2010

Candida


Da última vez já estava alucinada de morte, embaralhava todo o ocorrido dos tantos tempos naqueles olhos pequenos fechados em camadas de pele. No balançar compassado da cadeira e no procurar incessante do fio grosso ao redor da boca, matando o tempo: o fio de apego tão superficial a pele; feito a vida. Do que não se sabe eram os acessos de lucidez ou vidência momentâneos, instantizinho que desapegava da vigilância dos outros: grandes olhos arregalados de brilho parado, da boca, grande, um murmurinho indecifrável de frases ao ar, era como se Deus estivesse ali, pedindo, e ela negando.

Sorriso vazio de dentes, como criança de peito, ainda se fazia na hora de banhar, cada vez mais raro dadas as fragilidades. E o jorro da água morna na bacia, o tilintar da caneca mediando a temperatura, faziam era arrepio todo de felicidade lá da cadeira, até ensaio de passos, o pé batendo ansioso: água renova, quando criança queria era morrer água.

Nos tempos de chuva em que tudo era úmido parecia que viveria cem anos, era um afugentar de ladainhas com Deus e com os mortos, tempo que ficava da varanda olhando os primeiros pingos gordos de chuva: o pingo levanta uma poeirinha e o cheiro gostoso de terra molhada, os olhos grandes se banhavam e rolavam pelo quintal, um correr ansioso de desvendar se formiga nadava e se lá da copa das árvores passarinho tinha guarda chuva, daí vinha um grito desesperado de mãe brava na cozinha em avental, agora era correr da cinta e ficar se tremendo de frio e de medo, logo esquecidos depois do banho quente de caneca de alumínio.

E depois construir os mundos todos de barro e se lambuzar, noitezinha chegada era cavar com os dedos as estrelas no céu, esperando que elas, no dia seguinte, viessem brotar nas pontas dos dedos feito verrugas, cada uma um pedacinho de céu na mão. Reconstruindo entre o dormir e estar acordado, todas as histórias e misturar, salada de imaginação de criança solta no redor da casa, era desvendar cada luzinha no quarto e cavoucar a parede em busca do tesouro. Amanhecido com o cheiro de leitinho morno e a previsão de chuva, era correr em cavar buracos onde pisaria em poças.

O jorro da água morna ameniza a conversa com Deus, de vezes interrompidas, talvez nunca findasse o assunto, tramóia boba de enganação. E de tempos em tempos era tristezinha que beirava no peito quando das relembranças, encostava assim sorrateiro ente do passado, ente já passado, junto com as crianças que se misturavam nos nomes, todos eles, era confusão de tempo.

E de tanto os de antes e os de agora serem todos reais acabou tudo em silêncio, o corpo cada vez mais fechado em si, as conversas mais longas com Deus, nem jorro de água tilintava vida no fundo do olho: todas as coisas são ditas novamente do outro olho, de outra mão.

E contava pra mãe que cessada a chuva, nas primeiras securas do chão, junto ao cheiro de terra secando: a vida brotava de cada buraquinho. Gostava da vida pequena dos insetos, quase nomeá-los não fosse a semelhança, mas de embaralhar os nomes e as faces sabia que era tudo seu. Ontem antes de Dormir ouvia o compasso de um pingo na bacia de banhar adormeceu de branquear os olhos, dormindo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A menina que pulava amarelinha no pátio.


Intercalados os saltinhos entre os quadradinhos desenhados a giz, brincar menos solitário do que se pensa assim de repente, coisa de se bastar, que criança possui em principio. Coisa que acaba.
(a casa tinha um muro alto e portões cerrados, não se via o de fora, nem o de dentro. A menina estava descalça; camiseta curta aparecendo a barriga; cabelos desalinhados e bermuda. O olhar deve vir de cima, num movimento de mergulho e parar no número onde foi jogada a pedrinha. A menina olha para céu, o olhar deve ser lateral e em direção aos olhos da menina e explodir num clarão. A imagem começa vermelha).
E era fácil achar coisa do que fazer – cavoucar os canteiros, enterrar insetos mortos e os matados também.
(a menina, de cócoras, examina com destreza as partes da minhoca que cortou vagarosamente, com prazer infantil, está num canto do quintal. Olha a mãe e se perde em seus cabelos que teimam em cair nos olhos).
Expedições pelo quintal traziam todo o conhecimento do mundo, dos mínimos detalhes das coisas suas, era fechar os olhos e reconstruir tudo mudando as cores e tirando sentido dos objetos. De olhos fechados tateando o em volta e tudo era novo de sabor.
(a menina está sentada na escada e vê as pipas no céu, uma das pipas foi cortada “mandada”. Ela observa a pipa até não haver mais como).
Os sabores sempre os mesmos é que lhe davam prazer, encher a boca de açúcar, escondido – os olhos fechados – o açúcar derretendo na língua. Coisa que acaba.
(a menina vai até mãe com o joelho sangrando).