Tempo de pipa.
Passou a infância olhando pra cima, apontava o céu, dizia: grande. Ainda criança descobriu, na pipa, companheira e intermediária – as inventou de todas as formas e cores, de todos os materiais e de todos os sonhos. Andava para todos os caminhos guiando todas as pipas do céu, sentia-se flutuar, mesmo parado na calçada. E o tempo veio rápido: feito pipa que rasga o céu num corta vento. Homem farto das idéias impossíveis no chão.
Mas que digam que é doido, sabe que não é, e sabe que viver feito formiga que é loucura, porque formiga é formiga e gente é bicho feito pra se encantar no olhar. Acredita que foi encantado ao nascer. A mãe sempre dizia – nasceu assim, com a cara para o mundo, com olhos tão abertos e grandes que parecia que a qualquer momento iriam rolar pelo chão da casa até a porta e voar em direção ao céu. Gostava de lembrar os dizeres da mãe, fechava os olhos e os sentia criar asas até o infinito e arrebatar-se com seu tamanho diante do mundo.
Na rua de braços abertos de pés no chão voava feito gavião entre os pedestres da hora do almoço, usava-os como obstáculo, treinando. Com o tempo adquiriu a capacidade de não ouvir certas palavras, de não sentir certos cheiros e não ver com olhos de formiga. Desconhecia a necessidade de olhos pra se viver em formigueiros e matutava nunca ter visto os olhos de formiga alguma mesmo com muitas tentativas. E há tempos que todas as formigas, quando o sentem, se afastam. Algumas vezes lembra de comer.
Dia desses alguém lhe disse: venha vamos voar. Acreditou. Foi de branco à um castelo onde lhe dariam asas, lhe deram pregos. Inda de noitinha quando lembra que não é formiga, ou quando volta do fundo branco do quarto, viaja sem fim por todos os lugares. Ontem mesmo foi até sua antiga casa, se viu criança, soltou pipas e comeu bolinho de chuva que sua mãe fez. Mas logo se finge de formiga pregada que é para não assustar ninguém com seus olhos grandes.
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