Candida
Da última vez já estava alucinada de morte, embaralhava todo o ocorrido dos tantos tempos naqueles olhos pequenos fechados em camadas de pele. No balançar compassado da cadeira e no procurar incessante do fio grosso ao redor da boca, matando o tempo: o fio de apego tão superficial a pele; feito a vida. Do que não se sabe eram os acessos de lucidez ou vidência momentâneos, instantizinho que desapegava da vigilância dos outros: grandes olhos arregalados de brilho parado, da boca, grande, um murmurinho indecifrável de frases ao ar, era como se Deus estivesse ali, pedindo, e ela negando.
Sorriso vazio de dentes, como criança de peito, ainda se fazia na hora de banhar, cada vez mais raro dadas as fragilidades. E o jorro da água morna na bacia, o tilintar da caneca mediando a temperatura, faziam era arrepio todo de felicidade lá da cadeira, até ensaio de passos, o pé batendo ansioso: água renova, quando criança queria era morrer água.
Nos tempos de chuva em que tudo era úmido parecia que viveria cem anos, era um afugentar de ladainhas com Deus e com os mortos, tempo que ficava da varanda olhando os primeiros pingos gordos de chuva: o pingo levanta uma poeirinha e o cheiro gostoso de terra molhada, os olhos grandes se banhavam e rolavam pelo quintal, um correr ansioso de desvendar se formiga nadava e se lá da copa das árvores passarinho tinha guarda chuva, daí vinha um grito desesperado de mãe brava na cozinha em avental, agora era correr da cinta e ficar se tremendo de frio e de medo, logo esquecidos depois do banho quente de caneca de alumínio.
E depois construir os mundos todos de barro e se lambuzar, noitezinha chegada era cavar com os dedos as estrelas no céu, esperando que elas, no dia seguinte, viessem brotar nas pontas dos dedos feito verrugas, cada uma um pedacinho de céu na mão. Reconstruindo entre o dormir e estar acordado, todas as histórias e misturar, salada de imaginação de criança solta no redor da casa, era desvendar cada luzinha no quarto e cavoucar a parede em busca do tesouro. Amanhecido com o cheiro de leitinho morno e a previsão de chuva, era correr em cavar buracos onde pisaria em poças.
O jorro da água morna ameniza a conversa com Deus, de vezes interrompidas, talvez nunca findasse o assunto, tramóia boba de enganação. E de tempos em tempos era tristezinha que beirava no peito quando das relembranças, encostava assim sorrateiro ente do passado, ente já passado, junto com as crianças que se misturavam nos nomes, todos eles, era confusão de tempo.
E de tanto os de antes e os de agora serem todos reais acabou tudo em silêncio, o corpo cada vez mais fechado em si, as conversas mais longas com Deus, nem jorro de água tilintava vida no fundo do olho: todas as coisas são ditas novamente do outro olho, de outra mão.
E contava pra mãe que cessada a chuva, nas primeiras securas do chão, junto ao cheiro de terra secando: a vida brotava de cada buraquinho. Gostava da vida pequena dos insetos, quase nomeá-los não fosse a semelhança, mas de embaralhar os nomes e as faces sabia que era tudo seu. Ontem antes de Dormir ouvia o compasso de um pingo na bacia de banhar adormeceu de branquear os olhos, dormindo.
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