Quianda.
Era criança dessas que se bastam. E se bastou antes dos primeiros por quês, era feita a esquerda.
Passava horas observando o tráfego de sombras da temporada. A casa, na beira da estrada, a cidade ficava para trás, a infância também.
Talvez nunca tenha baixado os olhos daquela forma, ou o seu corpo não se mostrasse tão impenetrável, melhor, desconhecido. Passava os olhos por seu corpo e junto deslizava as mãos, devia ter ficado toda contorcida para enxergar e tocar algumas partes. Passando as mãos pelo rosto queria transformá-las em espelho, impaciente deixou-as cair até os seios, abdômen. As mãos, juntas, em forma de prece, como em dia de verão: mergulhou dentro de seu umbigo. Ficou do avesso.
Em avesso era invisível.
Tornou-se sensível às coisas ao seu redor. Seus músculos, livres, da primeira pele, mal conseguiam controlar os impulsos quando tocavam algo. Decidida a permanecer Ela, mesmo ausente aos olhos dos outros, decidiu voar. Incrivelmente seus olhos continuavam apontando para a direção de seu nariz, e ele, o nariz, já não aponta mais para onde deveria. Fazia sol, a camada adiposa do seu corpo derreteu feito manteiga na chapa. Decidiu não decidir mais, mas antes, decidiu seguir a direção das sombras, esqueceu-se da noite.
A insônia veio diferente, com olhos sempre abertos. De ficar muito tempo olhando uma coisa só, começou a conversar com coisas, estranhamente essas coisas não lhe respondiam, faziam cara de quem foi magoado.
Amanhecia como O todo sempre, depois da noite, e sempre e sempre. As empreitadas matinais, de seguir as sombras, lhe causavam algum tédio: escolhida a sombra, essa se demorava de hora em hora para um movimento considerado, a olhos nus, um movimento, e o sol ressecava seus tecidos sem pele. Estranhamente começara a sumir pelas cozinhas da cidade aqueles potes, com os quais, algumas donas de casa guardam a banha dos cozidos para outros cozidos. Ninguém ainda havia dado por falta dela. Agora segue os pedestres e os carros, sua não-pele começou a ficar enegrecida, estranhamente os rios começaram a ficar poluídos.
Numa noite, o Sofá corrigiu um erro de concordância verbal - o erro não vem ao caso. Fato: essa foi a primeira resposta que recebeu, começou a errar os tempos verbais.
Descobriu que sonhava, viu seu corpo ao avesso.
Com as mãos, depois de banhar-se ao sol, começou a arrancar as camadas de seu corpo, uma a uma, chegando ao limite, sentiu-se tomada por renovação. Foi refeita em direito por caramujos do jardim, andava pelas ruas e o sol iluminava seu rastro feito feixe fino de luz que ilumina uma música nova.
Sentiu nojo de si, sua viscosidade parecia nariz de criança pequena que não cessa de escorrer, e como criança pequena, simples, entendeu o mundo, as distancias e aprendeu todas as línguas. Calou.
Quis sentir o mar.
Agora é areia dessas bem finas, que ao sabor do vento caminham por entre as estações e cegam nossos olhos quando abertos de fronte ao vento. Abriu as janelas, borboletas no jardim.