terça-feira, 20 de julho de 2010

Gelo semicaído. Conversavam - era noite. A fraca luz talvez facilitasse a conversa. Via-se apenas uma parte do rosto, essa não compreendia toda a face esquerda, uns fios de cabelos caindo assim displicentes.

Viam-se: garrafas e pessoas, a música tocava. Falar de vultos e desvios, essa era conversa. Um evitava o olhar, o corpo reclinado olhava o chão. O outro observava os movimentos do bar e como a luz incidia nas pessoas na pista. Dançavam: a música, a luz e a conversa.

Entre frases e olhares soltos, dispersos, seria aquilo comunicação? Ambos tendiam a tal questionamento. Até que ponto o que se diz é entendido como foi dito. A música era rápida agora, não estavam dançando, nem os pés se moviam com num compasso de interesse, displicente, para cima e para baixo. Passou a mão e desviou do olhar os fios de cabelo. Encaravam-se de frente, em um silêncio agudo que ouviam mesmo com a música rápida. Ausência de música.Perceber o mundo e ser incapaz de distinguir algumas coisas.

Compreender é pretensão: eqüidistantes por experiências, idiossincrasias (...) Os intervalos entre os bancos do balcão, talvez sejam a única distancia perceptível. Ler o mundo alheio por todos os sinais aparentes e descobrir um novo mundo fora a aparência – a luz e a música num mesmo tom. Agora os fragmentos não se constroem artificialmente em totalidade, os cacos, mínimos e espalhados, cortam os pés. Ver o mundo aberto em borboletas, o desconhecido aproxima e afasta. Revoada. Não sabe - talvez sejam mariposas.Dessa coisa de sentir e não saber, de mudar, acha melhor desfazer seu mundo em borboletas, o processo inverso, ficar dentro de si. Ele talvez tenha percebido e por isso continue ali e ambos sem verbos conversam com os olhos. A música cessa, agora estão perto de uma porta, dela sai uma luz florescente e talvez saíssem borboletas. Como num corte rente que dividisse e abrisse as camadas: uma porta, uma película, compartimentos subseqüentes e subdivididos, por cima, tecido epitelial e mascaras. Passar por todas as etapas e chegar perto, tudo ficando frio.

O corpo parecia dizer algo que não se compreendia. Estavam dançando.


***


Quarto. Consegue ver nos espaços ocupados, as ausências. No canto esquerdo, onde as paredes se encontram, a luz incide de forma diversa em cada uma delas, seu corpo é dividido por uma sombra, a janela próxima, fuma um cigarro. Os olhos, lentos, e a noção do todo palpável.Bate o pé como se ouvisse música. Olha a fumaça saindo.

Abre a porta, sente o cheiro das suas coisas, está em casa. No sofá o corpo reclinado olha os próprios pés, cansaço, o mundo ainda corre por seus olhos, seu corpo ainda corre por seu corpo, mas está ali no canto do sofá. É preciso frear.

O corpo caído na faixa de pedestres. Atravessando com o acumulo de ausências e teorias de sobrevivência, com coragem, não se pensa, encerra-se. Acredita ainda, não sabe o porque. Esgueirar-se, teoria primeira. Uma borboleta pousa no canto do banco onde descansa, quanto tempo não via uma dessas. Correndo tenta pegar, pede ajuda, suas pernas dão curtos passos, seus braços esticados são metade. Asas fechadas. Era amarela, gosta do amarelo das borboletas, principalmente gosta de quando vê borboletas. Relógio, e ela já não estava mais ali.

Com as mãos na cabeça com medo de que ela caia, um fio de sangue entre os cabelos, mareado abre a porta. Lento, o corpo se movia lento, sentado nas próprias pernas, a mão dançava pela cabeça procurando reconhecê-la como um todo ainda. O sinal estava amarelo.Susto.A Luz incidiu forte e radioativa. O quarto era branco.

***

Naquele tempo os cabelos ainda caiam sorrateiros pelos olhos e ombros num esquecimento instintivo - havia todo o resto dos dias para cortar os cabelos. Lembrou disso depois do terceiro comprimido, eram doze por dia, e a soma do mês ultrapassava a idade que ainda teimava em não dizer. Não lembrava mais da última vez que havia saído do quarto. Aconteceu lentamente: um cansaço aqui, uma dor ali e agora na cama. A luz do dia entrava pelas frestas da janela raio por raio em fileiras eqüidistantes desenhadas nas cobertas. Defenestrava vida o sorriso amarelo da mulher que ainda estava ali, todo o dia, todo o ouvido até que a morte os separem; e ele que tinha por vezes ignorado sua presença e seu afeto. Ela tinha uns cabelos encaracolados, olhos negros, usava uma combinação de roupas estampadas em uma centena de revistas femininas. Quando seus olhos se encontraram, os dois baixaram a cabeça em sinal de aprovação, se gostaram na mesma vergonha de se olhar: entrava pela janela uma borboleta e ele seguia com os olhos, ela girou por todo quarto, ela viu, fez que acudia, fez que sabia, sinal da cruz, e valha me deus baixinho, os olhos fechados imersos num sono de criança que brincou a tarde inteira e que nem escândalo acorda. A borboleta ainda passou perto dos olhos pousou no criado mudo, fez que ia não foi. Foi. Já era tardinha e o sol se punha.

2 comentários:

  1. aguardando o livro de prosa(s)....

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  2. O seu livro novo nao é prosa?
    Interessante é o modo que vc desenha para suas prosas ou proseia os teus próprios desenhos. Fantástico. BJao!

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