quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Retrato em preto e sangue.

Uma mulher lava a calçada, fumando um cigarro, absorta na manhã. Depois de recriar a solidão de olhos fechados a cidade amanheceu. A mulher que fumou o cigarro na calçada, antes do enquadramento daquela cena, dormiu com coração apertado de saudade de coisa que não tem nome e nem gosto – e era como se comesse recortes macabeando os sentimentos durante o dia: remoendo situações para doer mais ou menos - isso dependia de como se tocava.

Bebera tanto aquela noite que nem conseguia descrever para que lado pendia sua cabeça segura pelos cotovelos apoiados na mesa, não sabia o nome do dono da mão entre suas pernas: não sabia. Das coisas que não compreendia estava o porque do adeus, da dor e do fim da infância. Quando tinha uma família, uns filhos, essa gente toda que não caberia no kit do centro que aluga com uma amiga de trabalho também cinza: não sabem da solidão uma da outra entre cores de esmaltes com adjetivos estranhos as cores e roupas que se simulam.

O marido a trocou: é essa a palavra que usa quando conta a história depois do trabalho com as amigas no forró, e tem um homem que esta lhe comendo com os olhos enquanto a música alta não deixa que as amigas ouçam o fim da história: ele levou as crianças.

Depois que nasceram as crianças a coisa ficou difícil, o corpo ficou distante, o homem ficou no bar, a vida doméstica.

Era a primeira vez que ganhara presente de natal, era felicidade, brincadeiras de ser o outro mais velho, mais sério, era a infância. E via a mãe na janela com um cigarro na boca absorta entre o enrolar do cabelo com os dedos, os olhos nas crianças, depois longe delas, depois em lugar que não se descreve: a fumaça percorria a garganta até os pulmões dando uma sensação de alivio.




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