E acredita mesmo que cigarros vagarosamente consumidos fazem bem a saúde: cabelos magros, olhos castanhos constrangidos, camiseta. O desenho da camiseta: três elefantes desenhados uns quase sobre os outros. Ônibus: uns quase sobre os outros. Outros: todos sobre o ônibus e a velha a fiar. Sente tudo apertado e nem só a lotação do ônibus, do trânsito, das filas – esse acumuluzinho de coisinhas que nos tiram o humor: pisão no pé, mochilas batendo na cabeça e o inesperado “pau” do moço, em pé, quase roçando em seu rosto. É mulher, na bolsa: maquilagem, sapatos, muitas coisas que não sabe como foram parar ali, grandes quantidades de segundas vias de débito, contas já pagas, fotos da família, espelho, escova de cabelo, óculos de leitura e sol, agenda: saudades.
Lágrimas correm por seu rosto, música alta nos fones, retoca o borro engolindo o choro. Triste, disseram que passaria, não passa. É um filme em looping na cabeça - a memória - qualquer coisa é dor: cor preferida, disco preferido, apelidos. “quero desgarrar dos seus braços e pêlos, parar de te ver em tudo que é coisa, cheiro, espelho. Quero mandar tudo à merda, você a merda, essa merda toda - a merda! Eu te amo, eu ainda te amo, faço o que com isso, faço o que? Me diz? Você não pode mais responder, e eu? Me sobra o consolo de fazer-me forte, forte pra que? Hein? Forte pra quem? Quem?
30cm de altura, duas pranchas de 120x240cm de compensado. Pessoas e consolos desconhecidos: 1997.
Dá sinal para descer, passa na padaria, café puro, amargo e fumegante: as mãos acariciam a xícara, o olhar se perde na gotícula de água formada na estufa de pães de queijo, caem fios de cabelos no rosto. Levanta levemente á boca o café amargo fechando os olhos castanhos disfarçados. Besteira não reparar na sutileza daqueles gestos e o fio de tristeza marcando as horas da manhã.
Domingo, de pijamas o dia todo. Um copo d’água, um livro, relógio e brincos esquecidos no criado mudo. Jazz ruminando nos móveis, não entende muito de música além do consumo auditivo e prazeroso dos sons. Cada nota sendo depositada nos poros da pele. Acredita que música se sente no corpo, não dançando, dançar é outra percepção: é o corpo nos poros na música. Final de tarde, não voltou ao livro, outra vez nas memórias palpáveis da casa, sozinha, palmilhando as lembranças, fio a fio fazendo tessituras.
“Hei! Você ta ai? Esta realmente aí? Eu acho que você nunca se foi, e nunca irá. Ta vendo isso aqui? Não, não esta! Você não pode ver mais nada, essa é minha barriga, ta vendo? To pelada na sua frente, e você esta aí parado? Olha pra mim? Não fica com esse sorrisinho semi-feliz daquele dia no parque. Aquele dia no parque: outono, vinho e crianças alheias gritando”.
1997, duas horas depois.
arrepio.
ResponderExcluirporram
ResponderExcluir