O elogio ao periférico ou a menina sobre quatro patas.
(Ao leitor vai que a estória é levemente inspirada em fatos surreais verdadeiros)
Tem que, se quiser andar nu, na vida, melhor mesmo é ser criança: usar somente calcinha com chinelos; usar só camisetas sem calcinha e dependendo da idade usar nada mesmo. Discorro sobre calcinhas, pois a personagem é uma menina, ou melhor, um universinho nu sobre um quadrúpede, que até o presente momento não sabemos se jegue ou jumento, conquanto se há mesmo esta diferença estéril em matéria de imaginação.
Todo nascimento envolve o mito, nossa pequena, que não espichou muito em altura, continuando neste tamanho de criança, nasceu sem magia como nascem os simples: hospital, parto, mãe, essas coisas em que não há necessidade de descrição. E corria pelas ruas feito tantas outras crianças periféricas: comedoras de terra, de plantinha do quintal, de algodão doce trocado por sucata, de banho de chuva, de gudes e sarjetas de imaginação. Não entraremos no mérito dos insetos.
As horas que batiam no relógio quando nasceu não se sabem. Talvez a lua fosse crescente, chovesse, ou um eclipse tenha mesmo atingido com demasiada força a cosmologia da menina: sabe-se que desde criança não gosta de roupas. E que dor é vestir a liberdade pueril: camisetas, tênis, escolas, trabalho, trabalho, trabalho.
No dia em que se inspira esse retrato não há nenhum fato singular, nada diferente da rotina: café da manhã, desenho na televisão, esconde-esconde, bola, pipas, brigas e inevitavelmente algumas broncas de mãe.
A rua cintilava no asfalto toda a força do calor de um dia de verão na periferia da cidade, crianças seminuas correm de um lugar ao outro gritando, pulando, mexendo com cachorros vadios e formigueiros; ameixas surrupiadas da casa do vizinho velho, futebol. As mães com afazeres domésticos, roupas no varal, fofocas e cigarros fumados com prazer de um momento a sós.
Do fim da rua surge em verde florescente, rédea, sela um quadrúpede puxado por um bípede: camiseta aberta, rosto queimado do sol, sapato gasto, cigarro acesso quase no fim: suspira em mais um dia de andanças pela periferia. Depois de tirada a foto, mediante sinal de cinqüenta por cento, esta demorava uma semana para chegar revelada ao seu destino final, a mãe.
A menina só de calcinha livre, corria pela rua com seus iguais: e o quadrúpede reluzia a curiosidade das crianças deslumbradas com tão incomum animal em verde, faziam rodinha em volta do bicho. Bem, que já conheciam outros espécimes coloridos como pintinhos que eram trocados por garrafas velhas, telesenas e frascos de perfumes findos.
A mãe depois de vasculhar sua carteira e dar os trocados na mão do moço grita pela menina que com certo medo: o tato do pêlo do bicho, a altura e a tinta verde que tingia agora suas mãozinhas também, atende ao chamado. Posicionada, na foto, suportava o que não era bem um sorriso, nem mesmo simulacro giocondesco, nada além de uma expressão entre o pavor e a felicidade. Afinal dentre tantas crianças foi escolhida por um subterfúgio materno a cavalgar o desconhecido, Sancho, Quixote, Zorro, uma amazona criança de calcinha, os raios de sol refratados na cor do bicho, cabelos despenteados, o flash, o daguerriótipo: a foto.
E tudo preso em uma foto de infância.
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