Nédio.
I.
Num dia, céu estrelado, uma mulher deu a luz a uma criança morta. Desesperada, largou a criança na sarjeta. Refletidas na água, as estrelas deram luz a criança, que desde então irradia semelhante brilho. Nédio cresceu esquerdo, enquanto o mundo era para “os pontas direita”, pensava que o mundo era penso e, às vezes, ficava horas fazendo força para endireitá-lo, cansado dormia. Sonhava com um mundo ambidestro.Perguntava ao papagaio e esse respondia perguntando, perdia horas tentando dissuadir o bicho. Refletida no espelho sua imagem era um flash estourado.
II.
Num lago, olhando os peixes, procurava sobre a face da água reconhecer um rosto, talvez o seu, ou um que lhe caiba nos sonhos.Desistia com certo tempo, olhava os peixes que estranhamente se mostravam para ele. Um dia sonhou em ser peixe, olhava no espelho e tinha cara de peixe, entardecido o dia, acordava, corria ao espelho e não era peixe, nem nada.Diziam que era especial. Horas pensando achava a palavra especial ruim, depois de muito refletindo, preferia – igual ou especifico. Estranho pensar especial, perto de tudo tão semelhante.
Gostava de palavras. Aprendida uma nova, repetia, repetia e repetia, até a palavra achar sentido nas coisas do seu mundo, quando essa se encaixava em algo, se satisfazia, olhava para a coisa, reinventava o mundo.
Nédio era um vaga-lume quando apagavam o sol, andava pelas ruas seguido por algumas crianças, sentava e contava histórias de peixes voadores, peixes-homem, peixes e peixes-galinha, peixes vendados, peixes que falam e em especial de peixes-vaga-lumes-florescentes.
Peixe-vuava, cansado de ser pássaro, resolveu ser só peixe, deixou-se cair, virou só peixe no lago, as asas soltas no ar, caíram na terra, veio a chuva e plantou, nasceu só pássaro. Peixe-tagarela era cantor, apaixonado e não correspondido, ficou quieto, entrou no mar - o barulho do mar é seu murmúrio de coração partido e o sal vem de suas lágrimas. O peixe-homem, cansado de ser duplo, escolheu ser só homem. Agora esquecida a parte peixe, o homem só faz outro homem e come peixe.
III.
Uma estrela cadente. Nédio subiu aos céus, foi consumido por não conseguir ser nem homem nem peixe, triste á esquerda, arranca pedaços do próprio corpo e atira para a Terra. Com alguma sorte é possível ver um pedaço que cai, não chega a tocar o solo e se desfaz na escuridão. E a noite continua acendendo vaga-lumes.
adoro esse....
ResponderExcluirtá escrito 'assas'soltas no ar... assas?
corrigido - valeu!
ResponderExcluirFlávia do céu, palmas para voce. Ganhei meu dia depois de ler. Preenche a alma. vc é FODA, mulher. Fala sério...
ResponderExcluir"pensava que o mundo era penso" nao entendi, me explica?
ResponderExcluir"penso" - a palavra é usada na zl quando um pipa, na zona leste é masculino, fica caindo para o mesmo lado quando esta céu. Na verdade "penso" é o nome do remendo "fita plástica de rabiola" que colocamos no lado oposto pra estabilizar o pipa.ajudou?
ResponderExcluirmas um coiso que tá penso, pode ser um coiso que tá caído prum lado.
ResponderExcluirrsrs
em mim a palavra repetida perde sentido e vira objeto.
amote