sexta-feira, 25 de março de 2011

Dos transportes públicos

"A direita uma senhora semivelha narra a uma desconhecida – desavisada que senhoras semivelhas trajando roupas seminovas e com o cabelo em coque quase grisalho são perigosamente tagarelas – fala do casamento da filha da irmã da vizinha; assunto com o qual a outra responde num balançar de cabeça de quem na verdade não quer, não está, e nem pretende ouvir e só é minimamente educada – a velha a cada frase limpa o nariz na manga da blusa. A esquerda, ainda se vê da porta de entrada do ônibus um lugar vazio – começa uma disputa silenciosa em que corpos e mãos tentam agarrar-se cada vez mais longe nas tubulações metálicas em amarelo do ônibus para chegar primeiro à catraca. Perdida a batalha resta o estudo minucioso de ao lado de qual banco se posicionar esperando que logo mais a vitima se levante para ocupar o banco ainda quente de bunda alheia. Esta análise requer a rotina de pegar o ônibus no mesmo horário, verificando a inquietação e principalmente os olhos da vitima – deve-se olhar intensamente e usar todo o repertório de caras e bocas possíveis – mentalmente forçar a saída da outra pessoa do estado de conforto e jogá-la as mesmas condições de luta, feito isso: é dar sorte de que ela realmente vá descer rápido. Fico mastigando essas pequenas batalhas diárias – disputando com desconhecidos provas de velocidade e habilidades – com que rapidez atravesso a rua ou a velocidade como, saindo em desvantagem, chego mais rápido na escada rolante. Escolho sempre alguém com potencial, pernas compridas, e saio à caça – é verdade que perco muitas batalhas – há um excessivo número de pessoas que não sabem andar em plataformas ruas e dentre os milhares de atrasados com segundos caros a romper. Não que esteja atrasado – eu nunca estou – nunca estive – a sensação de disputa é que me atrai. Escolho a vitima e me atiro numa disputa imaginária da qual eu nem sempre sou o vencedor".


quinta-feira, 24 de março de 2011

E acredita mesmo que cigarros vagarosamente consumidos fazem bem a saúde: cabelos magros, olhos castanhos constrangidos, camiseta. O desenho da camiseta: três elefantes desenhados uns quase sobre os outros. Ônibus: uns quase sobre os outros. Outros: todos sobre o ônibus e a velha a fiar. Sente tudo apertado e nem só a lotação do ônibus, do trânsito, das filas – esse acumuluzinho de coisinhas que nos tiram o humor: pisão no pé, mochilas batendo na cabeça e o inesperado “pau” do moço, em pé, quase roçando em seu rosto. É mulher, na bolsa: maquilagem, sapatos, muitas coisas que não sabe como foram parar ali, grandes quantidades de segundas vias de débito, contas já pagas, fotos da família, espelho, escova de cabelo, óculos de leitura e sol, agenda: saudades.

Lágrimas correm por seu rosto, música alta nos fones, retoca o borro engolindo o choro. Triste, disseram que passaria, não passa. É um filme em looping na cabeça - a memória - qualquer coisa é dor: cor preferida, disco preferido, apelidos. “quero desgarrar dos seus braços e pêlos, parar de te ver em tudo que é coisa, cheiro, espelho. Quero mandar tudo à merda, você a merda, essa merda toda - a merda! Eu te amo, eu ainda te amo, faço o que com isso, faço o que? Me diz? Você não pode mais responder, e eu? Me sobra o consolo de fazer-me forte, forte pra que? Hein? Forte pra quem? Quem?

30cm de altura, duas pranchas de 120x240cm de compensado. Pessoas e consolos desconhecidos: 1997.

Dá sinal para descer, passa na padaria, café puro, amargo e fumegante: as mãos acariciam a xícara, o olhar se perde na gotícula de água formada na estufa de pães de queijo, caem fios de cabelos no rosto. Levanta levemente á boca o café amargo fechando os olhos castanhos disfarçados. Besteira não reparar na sutileza daqueles gestos e o fio de tristeza marcando as horas da manhã.

Domingo, de pijamas o dia todo. Um copo d’água, um livro, relógio e brincos esquecidos no criado mudo. Jazz ruminando nos móveis, não entende muito de música além do consumo auditivo e prazeroso dos sons. Cada nota sendo depositada nos poros da pele. Acredita que música se sente no corpo, não dançando, dançar é outra percepção: é o corpo nos poros na música. Final de tarde, não voltou ao livro, outra vez nas memórias palpáveis da casa, sozinha, palmilhando as lembranças, fio a fio fazendo tessituras.

“Hei! Você ta ai? Esta realmente aí? Eu acho que você nunca se foi, e nunca irá. Ta vendo isso aqui? Não, não esta! Você não pode ver mais nada, essa é minha barriga, ta vendo? To pelada na sua frente, e você esta aí parado? Olha pra mim? Não fica com esse sorrisinho semi-feliz daquele dia no parque. Aquele dia no parque: outono, vinho e crianças alheias gritando”.

1997, duas horas depois.


# da pasta prosa ou algo perto disso - escrito entre 2007 e 2008 - acho


Nas pequenas coisas do dia-a-dia é que se vai morrendo, nessas que complicam um momento qualquer do dia: o copo que cai na hora da tosse, da sede e da ida.O sono.

Sair da rotina entrando em outra, para depois voltar à mesma, podendo sair novamente, grande circulo necessário.Fugir para um lugar seguro, não é fugir, ninguém busca segurança no desconhecido. Instável estabilidade, seguro dentro de seu próprio labirinto sem regras e saída, mas seu, é posse.Chega perto do muro, sabe que se pode ir além e não pula.

As ruas são as mesmas. Reconhece o caminho sentindo a brisa que passa, se pudesse fecharia os olhos e caminharia. Ou melhor, com um espelho seguro pelas mãos para cima, em direção ao céu, caminharia nas nuvens.Um carro.

Estuda como a luz incide nas paredes e sobre as pessoas.Observa o olhar dos outros e procura semelhanças.Sombra.Do batente para dentro e do batente para fora.Resumo.Com o tempo perde-se a graça, a criança.Brinca de pegar com os sonhos, meio acordado meio dormindo, manipula o sonho e quando acorda, o esquece.Abre a porta e sai para o trabalho depois de mais meia noite toda mal dormida.Insuportável dor nas costas.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Quianda.

Era criança dessas que se bastam. E se bastou antes dos primeiros por quês, era feita a esquerda.

Passava horas observando o tráfego de sombras da temporada. A casa, na beira da estrada, a cidade ficava para trás, a infância também.

Talvez nunca tenha baixado os olhos daquela forma, ou o seu corpo não se mostrasse tão impenetrável, melhor, desconhecido. Passava os olhos por seu corpo e junto deslizava as mãos, devia ter ficado toda contorcida para enxergar e tocar algumas partes. Passando as mãos pelo rosto queria transformá-las em espelho, impaciente deixou-as cair até os seios, abdômen. As mãos, juntas, em forma de prece, como em dia de verão: mergulhou dentro de seu umbigo. Ficou do avesso.

Em avesso era invisível.

Tornou-se sensível às coisas ao seu redor. Seus músculos, livres, da primeira pele, mal conseguiam controlar os impulsos quando tocavam algo. Decidida a permanecer Ela, mesmo ausente aos olhos dos outros, decidiu voar. Incrivelmente seus olhos continuavam apontando para a direção de seu nariz, e ele, o nariz, já não aponta mais para onde deveria. Fazia sol, a camada adiposa do seu corpo derreteu feito manteiga na chapa. Decidiu não decidir mais, mas antes, decidiu seguir a direção das sombras, esqueceu-se da noite.

A insônia veio diferente, com olhos sempre abertos. De ficar muito tempo olhando uma coisa só, começou a conversar com coisas, estranhamente essas coisas não lhe respondiam, faziam cara de quem foi magoado.

Amanhecia como O todo sempre, depois da noite, e sempre e sempre. As empreitadas matinais, de seguir as sombras, lhe causavam algum tédio: escolhida a sombra, essa se demorava de hora em hora para um movimento considerado, a olhos nus, um movimento, e o sol ressecava seus tecidos sem pele. Estranhamente começara a sumir pelas cozinhas da cidade aqueles potes, com os quais, algumas donas de casa guardam a banha dos cozidos para outros cozidos. Ninguém ainda havia dado por falta dela. Agora segue os pedestres e os carros, sua não-pele começou a ficar enegrecida, estranhamente os rios começaram a ficar poluídos.

Numa noite, o Sofá corrigiu um erro de concordância verbal - o erro não vem ao caso. Fato: essa foi a primeira resposta que recebeu, começou a errar os tempos verbais.

Descobriu que sonhava, viu seu corpo ao avesso.

Com as mãos, depois de banhar-se ao sol, começou a arrancar as camadas de seu corpo, uma a uma, chegando ao limite, sentiu-se tomada por renovação. Foi refeita em direito por caramujos do jardim, andava pelas ruas e o sol iluminava seu rastro feito feixe fino de luz que ilumina uma música nova.

Sentiu nojo de si, sua viscosidade parecia nariz de criança pequena que não cessa de escorrer, e como criança pequena, simples, entendeu o mundo, as distancias e aprendeu todas as línguas. Calou.

Quis sentir o mar.

Agora é areia dessas bem finas, que ao sabor do vento caminham por entre as estações e cegam nossos olhos quando abertos de fronte ao vento. Abriu as janelas, borboletas no jardim.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Retrato em preto e sangue.

Uma mulher lava a calçada, fumando um cigarro, absorta na manhã. Depois de recriar a solidão de olhos fechados a cidade amanheceu. A mulher que fumou o cigarro na calçada, antes do enquadramento daquela cena, dormiu com coração apertado de saudade de coisa que não tem nome e nem gosto – e era como se comesse recortes macabeando os sentimentos durante o dia: remoendo situações para doer mais ou menos - isso dependia de como se tocava.

Bebera tanto aquela noite que nem conseguia descrever para que lado pendia sua cabeça segura pelos cotovelos apoiados na mesa, não sabia o nome do dono da mão entre suas pernas: não sabia. Das coisas que não compreendia estava o porque do adeus, da dor e do fim da infância. Quando tinha uma família, uns filhos, essa gente toda que não caberia no kit do centro que aluga com uma amiga de trabalho também cinza: não sabem da solidão uma da outra entre cores de esmaltes com adjetivos estranhos as cores e roupas que se simulam.

O marido a trocou: é essa a palavra que usa quando conta a história depois do trabalho com as amigas no forró, e tem um homem que esta lhe comendo com os olhos enquanto a música alta não deixa que as amigas ouçam o fim da história: ele levou as crianças.

Depois que nasceram as crianças a coisa ficou difícil, o corpo ficou distante, o homem ficou no bar, a vida doméstica.

Era a primeira vez que ganhara presente de natal, era felicidade, brincadeiras de ser o outro mais velho, mais sério, era a infância. E via a mãe na janela com um cigarro na boca absorta entre o enrolar do cabelo com os dedos, os olhos nas crianças, depois longe delas, depois em lugar que não se descreve: a fumaça percorria a garganta até os pulmões dando uma sensação de alivio.




quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A indelével.

-Moço passa no largo...?

-Não, não passa!

-Mas você sabe qual passa, moço?

-Não sei!

Acelera e fecha a porta bruscamente, não tem mais paciência para as mesmas perguntas, sabe que não é sua obrigação.Calor, o vidro transfigura-se em estufa, rente ao motor, fervendo em barulhos ensurdecedores.A marmita azeda - come assim mesmo, fria, não vai comer de novo tão cedo e ainda tem que agüentar os que não sabem ir e nem como ir.

Uma moça entra, fica rente ao motor de engrenagens gritantes e ardentes, é magra, leve e de rosto suave.Pensa: não chega a ser bonita, usa roupas estranhas, maquilagem meio borrada ou mal feita, não sabe direito, sua mulher nunca usou maquilagem e depois que encontrou com o cara, Jesus, o deus, o raio que o parta, numa congregação qualquer, nunca mais sorriu nos churrascos de domingo junto ao filho.Quando se conheceram era alegre, a menina do bairro considerada a boa para casar, linda quando andava junto à mãe de braços dados a caminho da feira de domingo.

A moça continuava ali como miragem, reflexo de algo que ele não sabia o que era, talvez espectro de pessoa, mas não sabia o significado da palavra pessoa.Segunda marcha, da um tranco alguém grita, -filho da puta- ou alguma coisa dentro do gênero palavrão, não ouve muito bem, mais de quinze anos de profissão lhe deram talvez o prazer de não ouvir bem, fica puto da outro tranco. Vai mais devagar, ficará atrasado se continuar nessa velocidade pensa em vingança, ninguém vai ver a novela hoje, ele mesmo não vai ver, quer ver como ficam as pessoas desesperadas por assistir tv, no fundo as tiazinhas já reclamam da lentidão.Não tem pressa.

A moça balbucia algo.

-Hein! O que?

Ela repete, ele não ouve - a fala é tranqüila num tom baixo. Paga a passagem e passa pela Catraca. Queria muito ter escutado, mas o motor, as engrenagens, acha que ela disse um obrigado, não tem certeza. Escolhe não pensar mais nisso.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Suely e Alexandre.

A coisa toda ficou no ar, numa espera espessa, o tempo condensado, que nos minutos depois de sua chegada se desenrolariam fáceis como água na ladeira. Jovem, esguio, 17 anos, com poucos amigos, talvez nenhum, corpo fora da cabeça ou o contrário disso como todo mundo em certa idade. Sentada na mesa do bar, eram oito horas da manhã, tocava um velho disco da Bethânia, esperava - não sabia, esperava que o sol logo despontasse entre os prédios, era a hora de ir embora: contaria o dinheiro e os senões da noite. Quando era criança, desengonçado pela altura, parecia fora do padrão da maioria, tinha hábitos secretos no quarto da mãe, palavras secretas em seu diário, sensação de estar sempre no filme errado, ou era a personagem errada, coisa que se vai levando, comendo, andando. O quarto cheirava a um sexo anterior, ou a milhares deles, hotel no centro, lençóis amarelados, cortinas vermelhas: os movimentos pélvicos faziam ranger a cama velha. As roupas nela pareciam ter sido encaixadas a força em seu corpo, o corpo e as roupas, a cabeça, era ela que parecia ter sido encaixada no corpo.

O sol as nove da manha feriu o concreto entre os prédios, feriu os olhos de quem saía dos inferninhos da cidade: Suely chegou em casa as dez da manhã. Alexandre não volta para casa há cinco anos, ainda escreve em seu diário, mas não tem mais segredos.