Dos transportes públicos
"A direita uma senhora semivelha narra a uma desconhecida – desavisada que senhoras semivelhas trajando roupas seminovas e com o cabelo em coque quase grisalho são perigosamente tagarelas – fala do casamento da filha da irmã da vizinha; assunto com o qual a outra responde num balançar de cabeça de quem na verdade não quer, não está, e nem pretende ouvir e só é minimamente educada – a velha a cada frase limpa o nariz na manga da blusa. A esquerda, ainda se vê da porta de entrada do ônibus um lugar vazio – começa uma disputa silenciosa em que corpos e mãos tentam agarrar-se cada vez mais longe nas tubulações metálicas em amarelo do ônibus para chegar primeiro à catraca. Perdida a batalha resta o estudo minucioso de ao lado de qual banco se posicionar esperando que logo mais a vitima se levante para ocupar o banco ainda quente de bunda alheia. Esta análise requer a rotina de pegar o ônibus no mesmo horário, verificando a inquietação e principalmente os olhos da vitima – deve-se olhar intensamente e usar todo o repertório de caras e bocas possíveis – mentalmente forçar a saída da outra pessoa do estado de conforto e jogá-la as mesmas condições de luta, feito isso: é dar sorte de que ela realmente vá descer rápido. Fico mastigando essas pequenas batalhas diárias – disputando com desconhecidos provas de velocidade e habilidades – com que rapidez atravesso a rua ou a velocidade como, saindo em desvantagem, chego mais rápido na escada rolante. Escolho sempre alguém com potencial, pernas compridas, e saio à caça – é verdade que perco muitas batalhas – há um excessivo número de pessoas que não sabem andar em plataformas ruas e dentre os milhares de atrasados com segundos caros a romper. Não que esteja atrasado – eu nunca estou – nunca estive – a sensação de disputa é que me atrai. Escolho a vitima e me atiro numa disputa imaginária da qual eu nem sempre sou o vencedor".