E os dedos dentro do tênis suado contorciam-se freneticamente no espacinho entre o pé e o bico do tênis - pé, meia e tênis em fricção. Da boca saiam palavras duras e era como se cada verbo fosse escolhido para ferir rigorosamente os machucados que ainda nasceriam daquela conversa. Dois goles de cerveja e tudo estaria terminado.
Desceu com uma cacofonia sentimental as ruas até sua casa. Abriu livros, gavetas e chorou debaixo do chuveiro para esconder de si mesmo aquelas lagrimas tão odiosas: clichês. O choro, apesar de verdadeiro, era juvenil e isso lhe causava repulsa – como o querer é pueril e seu contrario tão senil e vingativo. E das coisas que o deixavam enojado era a facilidade com que se deixou envolver e a falta daquilo que nem mesmo tinha nome, cor, ou acordo em comum das partes: o momento mágico, de brilho dos olhos, de fantasia, de saudades – mero intervalo luminoso entre o inicio e o fim de uma lágrima, momento piegas filho da puta do caralho.
E não importa o tempo, outro afago, outra decepção – mal resolvidos – palavras de apoio, botecos, trabalho, amigos: nada.
- é isso então!?
- sim, eu não sei bem
- nem eu.
- meus pés doem...
- (a cabeça vai de um lado para o outro num tom de auto-reprovação) Que diabos eu vim fazer aqui? Que conversa é essa? Como chegamos neste momento? Preciso ir pra casa, já estou doze horas com este tênis... Acho que não tem nada pra comer em casa.
- é o cansaço.
(silêncio)
- eu já sabia.
(E guardando os demônios em todos os poros se despede cordialmente com um sorriso-choro e caminha em direção a porta)
21:30 era a hora marcada.
21:00 já tinha terminado a primeira garrafa de cerveja sozinho.
20:00 entram os primeiros clientes da noite, metade das cadeiras ainda repousam sobre as mesas sem uso. É um casal – porção de fritas, cerveja e uma garrafa de água. Ela segura as mãos dele, segue-se um beijo, afagos. A cerveja chega servem-se. Brilho nos olhos.
19:21 os salgados frescos são divididos entre as estufas.
18:42 estão lavando os banheiros pela terceira vez no dia.
17:30 de uma sexta-feira praticantes do happy hour choram de rir na mesa 5. Estão em 12 pessoas. Algumas delas flertam.
17:00 os funcionários do segundo turno rendem os do primeiro.
15:00 começam a lavar os banheiros e a preparar salgados.
13:00 sai para o almoço com estômago revirado em angústia.
14:00 chegam os primeiros clientes para o almoço executivo.
13:00 lembrou agora que teriam aquela conversa.
9:00 sem atrasos chegam ao trabalho
8:20 estão no ônibus a caminho do trabalho
6:00 chegam os primeiros clientes e o cheiro do café se espalha
4:30 começam a lavar tudo
4:20 os últimos clientes são convidados a ir pra casa
2:00 chora copiosamente vaticinando a noite
3 semanas atrás faziam planos de um fim de semana juntos.
Brilho nos olhos.
