A indelével.
-Moço passa no largo...?
-Não, não passa!
-Mas você sabe qual passa, moço?
-Não sei!
Acelera e fecha a porta bruscamente, não tem mais paciência para as mesmas perguntas, sabe que não é sua obrigação.Calor, o vidro transfigura-se em estufa, rente ao motor, fervendo em barulhos ensurdecedores.A marmita azeda - come assim mesmo, fria, não vai comer de novo tão cedo e ainda tem que agüentar os que não sabem ir e nem como ir.
Uma moça entra, fica rente ao motor de engrenagens gritantes e ardentes, é magra, leve e de rosto suave.Pensa: não chega a ser bonita, usa roupas estranhas, maquilagem meio borrada ou mal feita, não sabe direito, sua mulher nunca usou maquilagem e depois que encontrou com o cara, Jesus, o deus, o raio que o parta, numa congregação qualquer, nunca mais sorriu nos churrascos de domingo junto ao filho.Quando se conheceram era alegre, a menina do bairro considerada a boa para casar, linda quando andava junto à mãe de braços dados a caminho da feira de domingo.
A moça continuava ali como miragem, reflexo de algo que ele não sabia o que era, talvez espectro de pessoa, mas não sabia o significado da palavra pessoa.Segunda marcha, da um tranco alguém grita, -filho da puta- ou alguma coisa dentro do gênero palavrão, não ouve muito bem, mais de quinze anos de profissão lhe deram talvez o prazer de não ouvir bem, fica puto da outro tranco. Vai mais devagar, ficará atrasado se continuar nessa velocidade pensa em vingança, ninguém vai ver a novela hoje, ele mesmo não vai ver, quer ver como ficam as pessoas desesperadas por assistir tv, no fundo as tiazinhas já reclamam da lentidão.Não tem pressa.
A moça balbucia algo.
-Hein! O que?
Ela repete, ele não ouve - a fala é tranqüila num tom baixo. Paga a passagem e passa pela Catraca. Queria muito ter escutado, mas o motor, as engrenagens, acha que ela disse um obrigado, não tem certeza. Escolhe não pensar mais nisso.