quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A indelével.

-Moço passa no largo...?

-Não, não passa!

-Mas você sabe qual passa, moço?

-Não sei!

Acelera e fecha a porta bruscamente, não tem mais paciência para as mesmas perguntas, sabe que não é sua obrigação.Calor, o vidro transfigura-se em estufa, rente ao motor, fervendo em barulhos ensurdecedores.A marmita azeda - come assim mesmo, fria, não vai comer de novo tão cedo e ainda tem que agüentar os que não sabem ir e nem como ir.

Uma moça entra, fica rente ao motor de engrenagens gritantes e ardentes, é magra, leve e de rosto suave.Pensa: não chega a ser bonita, usa roupas estranhas, maquilagem meio borrada ou mal feita, não sabe direito, sua mulher nunca usou maquilagem e depois que encontrou com o cara, Jesus, o deus, o raio que o parta, numa congregação qualquer, nunca mais sorriu nos churrascos de domingo junto ao filho.Quando se conheceram era alegre, a menina do bairro considerada a boa para casar, linda quando andava junto à mãe de braços dados a caminho da feira de domingo.

A moça continuava ali como miragem, reflexo de algo que ele não sabia o que era, talvez espectro de pessoa, mas não sabia o significado da palavra pessoa.Segunda marcha, da um tranco alguém grita, -filho da puta- ou alguma coisa dentro do gênero palavrão, não ouve muito bem, mais de quinze anos de profissão lhe deram talvez o prazer de não ouvir bem, fica puto da outro tranco. Vai mais devagar, ficará atrasado se continuar nessa velocidade pensa em vingança, ninguém vai ver a novela hoje, ele mesmo não vai ver, quer ver como ficam as pessoas desesperadas por assistir tv, no fundo as tiazinhas já reclamam da lentidão.Não tem pressa.

A moça balbucia algo.

-Hein! O que?

Ela repete, ele não ouve - a fala é tranqüila num tom baixo. Paga a passagem e passa pela Catraca. Queria muito ter escutado, mas o motor, as engrenagens, acha que ela disse um obrigado, não tem certeza. Escolhe não pensar mais nisso.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Suely e Alexandre.

A coisa toda ficou no ar, numa espera espessa, o tempo condensado, que nos minutos depois de sua chegada se desenrolariam fáceis como água na ladeira. Jovem, esguio, 17 anos, com poucos amigos, talvez nenhum, corpo fora da cabeça ou o contrário disso como todo mundo em certa idade. Sentada na mesa do bar, eram oito horas da manhã, tocava um velho disco da Bethânia, esperava - não sabia, esperava que o sol logo despontasse entre os prédios, era a hora de ir embora: contaria o dinheiro e os senões da noite. Quando era criança, desengonçado pela altura, parecia fora do padrão da maioria, tinha hábitos secretos no quarto da mãe, palavras secretas em seu diário, sensação de estar sempre no filme errado, ou era a personagem errada, coisa que se vai levando, comendo, andando. O quarto cheirava a um sexo anterior, ou a milhares deles, hotel no centro, lençóis amarelados, cortinas vermelhas: os movimentos pélvicos faziam ranger a cama velha. As roupas nela pareciam ter sido encaixadas a força em seu corpo, o corpo e as roupas, a cabeça, era ela que parecia ter sido encaixada no corpo.

O sol as nove da manha feriu o concreto entre os prédios, feriu os olhos de quem saía dos inferninhos da cidade: Suely chegou em casa as dez da manhã. Alexandre não volta para casa há cinco anos, ainda escreve em seu diário, mas não tem mais segredos.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tempo de pipa.

Passou a infância olhando pra cima, apontava o céu, dizia: grande. Ainda criança descobriu, na pipa, companheira e intermediária – as inventou de todas as formas e cores, de todos os materiais e de todos os sonhos. Andava para todos os caminhos guiando todas as pipas do céu, sentia-se flutuar, mesmo parado na calçada. E o tempo veio rápido: feito pipa que rasga o céu num corta vento. Homem farto das idéias impossíveis no chão.

Mas que digam que é doido, sabe que não é, e sabe que viver feito formiga que é loucura, porque formiga é formiga e gente é bicho feito pra se encantar no olhar. Acredita que foi encantado ao nascer. A mãe sempre dizia – nasceu assim, com a cara para o mundo, com olhos tão abertos e grandes que parecia que a qualquer momento iriam rolar pelo chão da casa até a porta e voar em direção ao céu. Gostava de lembrar os dizeres da mãe, fechava os olhos e os sentia criar asas até o infinito e arrebatar-se com seu tamanho diante do mundo.

Na rua de braços abertos de pés no chão voava feito gavião entre os pedestres da hora do almoço, usava-os como obstáculo, treinando. Com o tempo adquiriu a capacidade de não ouvir certas palavras, de não sentir certos cheiros e não ver com olhos de formiga. Desconhecia a necessidade de olhos pra se viver em formigueiros e matutava nunca ter visto os olhos de formiga alguma mesmo com muitas tentativas. E há tempos que todas as formigas, quando o sentem, se afastam. Algumas vezes lembra de comer.

Dia desses alguém lhe disse: venha vamos voar. Acreditou. Foi de branco à um castelo onde lhe dariam asas, lhe deram pregos. Inda de noitinha quando lembra que não é formiga, ou quando volta do fundo branco do quarto, viaja sem fim por todos os lugares. Ontem mesmo foi até sua antiga casa, se viu criança, soltou pipas e comeu bolinho de chuva que sua mãe fez. Mas logo se finge de formiga pregada que é para não assustar ninguém com seus olhos grandes.

domingo, 8 de agosto de 2010

Candida


Da última vez já estava alucinada de morte, embaralhava todo o ocorrido dos tantos tempos naqueles olhos pequenos fechados em camadas de pele. No balançar compassado da cadeira e no procurar incessante do fio grosso ao redor da boca, matando o tempo: o fio de apego tão superficial a pele; feito a vida. Do que não se sabe eram os acessos de lucidez ou vidência momentâneos, instantizinho que desapegava da vigilância dos outros: grandes olhos arregalados de brilho parado, da boca, grande, um murmurinho indecifrável de frases ao ar, era como se Deus estivesse ali, pedindo, e ela negando.

Sorriso vazio de dentes, como criança de peito, ainda se fazia na hora de banhar, cada vez mais raro dadas as fragilidades. E o jorro da água morna na bacia, o tilintar da caneca mediando a temperatura, faziam era arrepio todo de felicidade lá da cadeira, até ensaio de passos, o pé batendo ansioso: água renova, quando criança queria era morrer água.

Nos tempos de chuva em que tudo era úmido parecia que viveria cem anos, era um afugentar de ladainhas com Deus e com os mortos, tempo que ficava da varanda olhando os primeiros pingos gordos de chuva: o pingo levanta uma poeirinha e o cheiro gostoso de terra molhada, os olhos grandes se banhavam e rolavam pelo quintal, um correr ansioso de desvendar se formiga nadava e se lá da copa das árvores passarinho tinha guarda chuva, daí vinha um grito desesperado de mãe brava na cozinha em avental, agora era correr da cinta e ficar se tremendo de frio e de medo, logo esquecidos depois do banho quente de caneca de alumínio.

E depois construir os mundos todos de barro e se lambuzar, noitezinha chegada era cavar com os dedos as estrelas no céu, esperando que elas, no dia seguinte, viessem brotar nas pontas dos dedos feito verrugas, cada uma um pedacinho de céu na mão. Reconstruindo entre o dormir e estar acordado, todas as histórias e misturar, salada de imaginação de criança solta no redor da casa, era desvendar cada luzinha no quarto e cavoucar a parede em busca do tesouro. Amanhecido com o cheiro de leitinho morno e a previsão de chuva, era correr em cavar buracos onde pisaria em poças.

O jorro da água morna ameniza a conversa com Deus, de vezes interrompidas, talvez nunca findasse o assunto, tramóia boba de enganação. E de tempos em tempos era tristezinha que beirava no peito quando das relembranças, encostava assim sorrateiro ente do passado, ente já passado, junto com as crianças que se misturavam nos nomes, todos eles, era confusão de tempo.

E de tanto os de antes e os de agora serem todos reais acabou tudo em silêncio, o corpo cada vez mais fechado em si, as conversas mais longas com Deus, nem jorro de água tilintava vida no fundo do olho: todas as coisas são ditas novamente do outro olho, de outra mão.

E contava pra mãe que cessada a chuva, nas primeiras securas do chão, junto ao cheiro de terra secando: a vida brotava de cada buraquinho. Gostava da vida pequena dos insetos, quase nomeá-los não fosse a semelhança, mas de embaralhar os nomes e as faces sabia que era tudo seu. Ontem antes de Dormir ouvia o compasso de um pingo na bacia de banhar adormeceu de branquear os olhos, dormindo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A menina que pulava amarelinha no pátio.


Intercalados os saltinhos entre os quadradinhos desenhados a giz, brincar menos solitário do que se pensa assim de repente, coisa de se bastar, que criança possui em principio. Coisa que acaba.
(a casa tinha um muro alto e portões cerrados, não se via o de fora, nem o de dentro. A menina estava descalça; camiseta curta aparecendo a barriga; cabelos desalinhados e bermuda. O olhar deve vir de cima, num movimento de mergulho e parar no número onde foi jogada a pedrinha. A menina olha para céu, o olhar deve ser lateral e em direção aos olhos da menina e explodir num clarão. A imagem começa vermelha).
E era fácil achar coisa do que fazer – cavoucar os canteiros, enterrar insetos mortos e os matados também.
(a menina, de cócoras, examina com destreza as partes da minhoca que cortou vagarosamente, com prazer infantil, está num canto do quintal. Olha a mãe e se perde em seus cabelos que teimam em cair nos olhos).
Expedições pelo quintal traziam todo o conhecimento do mundo, dos mínimos detalhes das coisas suas, era fechar os olhos e reconstruir tudo mudando as cores e tirando sentido dos objetos. De olhos fechados tateando o em volta e tudo era novo de sabor.
(a menina está sentada na escada e vê as pipas no céu, uma das pipas foi cortada “mandada”. Ela observa a pipa até não haver mais como).
Os sabores sempre os mesmos é que lhe davam prazer, encher a boca de açúcar, escondido – os olhos fechados – o açúcar derretendo na língua. Coisa que acaba.
(a menina vai até mãe com o joelho sangrando).

domingo, 25 de julho de 2010

Televisão de cachorro

Praticando delitos desproporcionais a seu corpo que antes do almoço e depois e amanhã e ontem ficara sentado na frente do computador, pelos corredores distribuídos num galpão, lojas vitrines produtos simétricos como o (e) terno azul obrigatório camisa branca amarela de muito velha. Quantos anos, quantas horas - é melhor não pensar em unidades mínimas. Pelo corredor longo passam: verdes, vermelhos, azuis uma infinidade de cores, fontes, distorções plásticas e visuais de vários formatos; arredondados geométricos absurdos. Câmeras seguem-se pelos corredores vazios, o seguem, as câmeras o cão desde a rua o seguiu o espera na porta pronto para voltar ao mesmo lugar, observa os frangos que giram dentro dos corredores na padaria, que observavam a máquina que triturava frangos no frigorífico homens de branco - dois pães, não três. O cachorro, pensa no cachorro, dois ou três? – Quatro, eu quero quatro, sai ....O cachorro ignora o pão e o segue não sabe voltar.Senta numa praça come bebe, muitos pombos pontes pessoas carros,agora ainda faltam minutos ,engole anda, o cachorro - esse maldito cachorro,pensa.Seguem na rua lojas, uma padaria, frangos rodando, pede uma cerveja, ainda tem cinco minutos, parado vendo os frangos rodarem, o cachorro, bebe a cerveja compra o frango, balança o rabo ...segue-o volta para o mercado da o frango ao cachorro ...os malditos homens de branco,aqueles safados cobram um absurdo por esse plano de saúde,e o maldito cachorro não sabe voltar agora......horas ,horas sai do trabalho seguem-se luzes amarelas ,asfalto, aflito pega o ônibus lotado.Pessoas muitas delas muito perto muito quente - seu safado!!!!!!! Desculpas. Uma freada forte, pessoas se amassam, muitas - seu filho da puta!!!!!!Num ta levando sua mãe!!!!Desce já ta no prédio sujo uma pechincha por mês com café da manhã e roupa lavada, a camisa muito velha amarela,no escritório torcem o nariz.Deita , do bolso chocolates amassados disformes.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Gelo semicaído. Conversavam - era noite. A fraca luz talvez facilitasse a conversa. Via-se apenas uma parte do rosto, essa não compreendia toda a face esquerda, uns fios de cabelos caindo assim displicentes.

Viam-se: garrafas e pessoas, a música tocava. Falar de vultos e desvios, essa era conversa. Um evitava o olhar, o corpo reclinado olhava o chão. O outro observava os movimentos do bar e como a luz incidia nas pessoas na pista. Dançavam: a música, a luz e a conversa.

Entre frases e olhares soltos, dispersos, seria aquilo comunicação? Ambos tendiam a tal questionamento. Até que ponto o que se diz é entendido como foi dito. A música era rápida agora, não estavam dançando, nem os pés se moviam com num compasso de interesse, displicente, para cima e para baixo. Passou a mão e desviou do olhar os fios de cabelo. Encaravam-se de frente, em um silêncio agudo que ouviam mesmo com a música rápida. Ausência de música.Perceber o mundo e ser incapaz de distinguir algumas coisas.

Compreender é pretensão: eqüidistantes por experiências, idiossincrasias (...) Os intervalos entre os bancos do balcão, talvez sejam a única distancia perceptível. Ler o mundo alheio por todos os sinais aparentes e descobrir um novo mundo fora a aparência – a luz e a música num mesmo tom. Agora os fragmentos não se constroem artificialmente em totalidade, os cacos, mínimos e espalhados, cortam os pés. Ver o mundo aberto em borboletas, o desconhecido aproxima e afasta. Revoada. Não sabe - talvez sejam mariposas.Dessa coisa de sentir e não saber, de mudar, acha melhor desfazer seu mundo em borboletas, o processo inverso, ficar dentro de si. Ele talvez tenha percebido e por isso continue ali e ambos sem verbos conversam com os olhos. A música cessa, agora estão perto de uma porta, dela sai uma luz florescente e talvez saíssem borboletas. Como num corte rente que dividisse e abrisse as camadas: uma porta, uma película, compartimentos subseqüentes e subdivididos, por cima, tecido epitelial e mascaras. Passar por todas as etapas e chegar perto, tudo ficando frio.

O corpo parecia dizer algo que não se compreendia. Estavam dançando.


***


Quarto. Consegue ver nos espaços ocupados, as ausências. No canto esquerdo, onde as paredes se encontram, a luz incide de forma diversa em cada uma delas, seu corpo é dividido por uma sombra, a janela próxima, fuma um cigarro. Os olhos, lentos, e a noção do todo palpável.Bate o pé como se ouvisse música. Olha a fumaça saindo.

Abre a porta, sente o cheiro das suas coisas, está em casa. No sofá o corpo reclinado olha os próprios pés, cansaço, o mundo ainda corre por seus olhos, seu corpo ainda corre por seu corpo, mas está ali no canto do sofá. É preciso frear.

O corpo caído na faixa de pedestres. Atravessando com o acumulo de ausências e teorias de sobrevivência, com coragem, não se pensa, encerra-se. Acredita ainda, não sabe o porque. Esgueirar-se, teoria primeira. Uma borboleta pousa no canto do banco onde descansa, quanto tempo não via uma dessas. Correndo tenta pegar, pede ajuda, suas pernas dão curtos passos, seus braços esticados são metade. Asas fechadas. Era amarela, gosta do amarelo das borboletas, principalmente gosta de quando vê borboletas. Relógio, e ela já não estava mais ali.

Com as mãos na cabeça com medo de que ela caia, um fio de sangue entre os cabelos, mareado abre a porta. Lento, o corpo se movia lento, sentado nas próprias pernas, a mão dançava pela cabeça procurando reconhecê-la como um todo ainda. O sinal estava amarelo.Susto.A Luz incidiu forte e radioativa. O quarto era branco.

***

Naquele tempo os cabelos ainda caiam sorrateiros pelos olhos e ombros num esquecimento instintivo - havia todo o resto dos dias para cortar os cabelos. Lembrou disso depois do terceiro comprimido, eram doze por dia, e a soma do mês ultrapassava a idade que ainda teimava em não dizer. Não lembrava mais da última vez que havia saído do quarto. Aconteceu lentamente: um cansaço aqui, uma dor ali e agora na cama. A luz do dia entrava pelas frestas da janela raio por raio em fileiras eqüidistantes desenhadas nas cobertas. Defenestrava vida o sorriso amarelo da mulher que ainda estava ali, todo o dia, todo o ouvido até que a morte os separem; e ele que tinha por vezes ignorado sua presença e seu afeto. Ela tinha uns cabelos encaracolados, olhos negros, usava uma combinação de roupas estampadas em uma centena de revistas femininas. Quando seus olhos se encontraram, os dois baixaram a cabeça em sinal de aprovação, se gostaram na mesma vergonha de se olhar: entrava pela janela uma borboleta e ele seguia com os olhos, ela girou por todo quarto, ela viu, fez que acudia, fez que sabia, sinal da cruz, e valha me deus baixinho, os olhos fechados imersos num sono de criança que brincou a tarde inteira e que nem escândalo acorda. A borboleta ainda passou perto dos olhos pousou no criado mudo, fez que ia não foi. Foi. Já era tardinha e o sol se punha.